O passageiro do assento ao lado, primeiro dia em Cuba!
A nossa viagem a Cuba se iniciou exatamente no dia 24 de fevereiro as sete e quarenta da manhã, quando minha mãe nos deixou no aeroporto de Guarulhos, mas começar mesmo de fato foi muito depois, penso que a parte inicial da viagem não tem nada de interessante e nem muita novidade, deve ser mais ou menos igual às viagens de todo mundo.
Depois de chegar a Caracas, local da nossa escala, tivemos que esperar seis horas até embarcar para Cuba :( Depois de tanto tempo finalmente chegávamos às escadas do avião da Cubana de aviação, foi ai que a sensação de que a viagem finalmente começava surgiu.
Ao pegar nossos assentos no avião eu percebi que a Camila e eu estávamos separados, ela havia ficado na janela no assento 12-A e eu no corredor 12-C, então aguardamos o nosso companheiro do 12-B chegar para tentar uma troca.
A nossa primeira personagem da viagem, o famigerado “passageiro do assento ao lado”, seria justamente aquele que por hora conhecemos apenas por 12-B.
Eu fiquei provisoriamente sentado no assento 12-B esperando que todo mundo entrasse e se acomodasse no avião, principalmente o real dono do assento 12-B, com quem tentaria uma troca, enquanto isso não ocorria a Cá e eu conversávamos e tentávamos fingir que controlávamos todo o nosso nervosismo (rs), eis que um senhor de uns 50 e tantos anos, branco, olhos claros, baixo, cabelos grisalhos penteados para trás, um tipo modesto de bon vivant (na minha analise mega superficial é claro!) de camisão tipicamente cubano, parou do nosso lado e disse:
- ¿Con permiso? ¡Doce “Bíe”, correcto!
E então respondi no melhor do meu “portunhol”:
- ¡Si señor! ¿Pero, lo señor no achas que novios dienvinhem sientar siempre lhuntos?
Ele soltou um sorriso largo e sem responder nada tratou de se acomodar no assento 12-C. Não demorou muito até ele se acomodar, virar em nossa direção e perguntar de onde éramos, e pela primeira vez na viagem sentimos como os cubanos gostam de brasileiros, então o senhor grisalho boa pinta que até agora era conhecido como sujeito do assento 12-C se apresentou.
Tratava-se do Sr. Raul, engenheiro mecânico, fã de músicas e novelas brasileiras.
O bate papo com o Sr. Raul começou com ele contando as suas experiências no Uruguai onde trabalhou um tempo e pode conhecer algumas cidades fronteiriças entre o Brasil e o Uruguai, falou também um pouco do seu trabalho (motivos de tantas viagens) até a hora em que começou a elogiar nossa musica. Ele se dizia fã mesmo é de uma cantora de Black Music brasileira que, segundo ele, era a melhor voz da musica Black internacional hoje – Vanessa Jackson – para quem não a conhece, ela ganhou um desses realities shows de cantores. Devo admitir que talvez o tenha decepcionado um pouco por não conhecer e nem gostar de tantos cantores brasileiros assim, pelo menos daqueles que ele mencionava, os únicos que ele citava e eu realmente conhecia ou gostava eram esses mais famosos como Roberto Carlos e Caetano Veloso e que ainda assim nem a Camila e eu gostamos tanto...
Mas, a prosa tomou outro rumo e passamos a falar de novela (e novela brasileira é a paixão nacional em Cuba) ai sim, incrivelmente, eu passei a me inteirar mais sobre o assunto. E como todo brasuca que vai a Cuba com fins políticos tentava entender: O que uma pessoa pode extrair de bom de uma novela da Globo, ainda mais em Cuba?!
O Sr. Raul de forma voluntariosa tratou de responder essa questão para mim. Ele dizia que as novelas brasileiras eram as melhores porque os autores brasileiros construíam personagens complexos e mais humanos o que segundo ele diverge das tradicionais novelas mexicanas, onde a personagem boa é boa, boa, boa e a personagem má é, má, má, má e segundo ele – ¡La vida no es así!
Bom, o Sr. Raul era um noveleiro muito diferente do padrão brasileiro, ele falava sobre o poder da expressão facial da Regina Duarte, de como a Patrícia Pillar usava o gestual nas suas interpretações e de como “o enredo da novela conduz a uma narrativa que entrelaça as personagens criando vários graus de histórias e historietas que fazem as tramas ficarem mais interessantes” (palavras do próprio Sr. Raul).
Ali eu vi que não conversava com qualquer passageiro a toa, ali do meu lado estava um autêntico cubano, um cara articulado, culto, na medida do grau de complexidade de nossa conversa, então de pronto senti a necessidade de levar o nosso bate papo para uma esfera, digamos assim, mais política. Contei para ele que as novelas brasileiras não retratavam o Brasil e ele, antes mesmo que eu terminasse a frase, me chancelou e disse:
- ¡Sí, como no, todavia es la Televisíon la maquina de illusion!
Então indaguei se isso não traria implicações nas mentalidades das pessoas e que se tudo isso não iria contra o pensamento socialista. E ele devolveu:
- “Mira, puede ocorer, todavia que una novela o película puede tratar de cambiar y influenziar la mentalidad de una persona, pero que sí eso ocores es uno problema del socialismo, ante la manipulacíon por dicer, yo como ejemplo, estoy seguro, las personas debe se quedar seguras, lo problema no es la manipulacíon es la seguridad.”
Poxa, estava super feliz de estar ali e poder estar discutindo tudo isso, pena que a Camila dormiu, ela estava muito cansada da nossa interminável conexão. Eu escutava com atenção as coisas que o notável senhor do 12-C dizia, ele chegou a comentar também que aonde ele vivia em Caracas podia assistir a CNN e a Globo internacional e ficava muito impressionado com a forma de distorção e manipulação das noticias, principalmente sobre Cuba.
Mas, como já havia rolado ali certa empatia entre nós, e nesta altura do campeonato já tinha o Sr. Raul como colega, resolvi perguntar abertamente o que ele pensava sobre o governo cubano, como ele via as transformações econômicas, o socialismo, etc...
O cara começou a falar sobre tudo, sem o menor receio, mas de forma genérica, como quem fala sobre futebol em uma mesa de bar aqui no Brasil, seguro de suas respostas ele sempre tentava contextualizar seus exemplos e se mostrou bem informado, não só sobre Cuba, mas sobre tudo que rolava em toda a América Latina e embora respondesse de forma geral as suas respostas nunca eram simples, mas de certa maneira, talvez pelas circunstâncias, não se aprofundava muito nas polêmicas, sempre em que chegava em um ponto ou fato polêmico dava com ombros e dizia – ¡Es complicado!.
Ele comentou um pouco sobre as mudanças econômicas de Cuba e senti um certo otimismo, mas não poupou as ressalvas e críticas ao governo que segundo ele anda muito devagar.
Ele me explicava que Cuba era um país que por conta do bloqueio econômico e político estadunidense não passou por fases importantes de desenvolvimento e industrialização que para ele ajudou muito o Brasil a crescer.
O Sr. Raul me pareceu muito acreditar que o Brasil passava por processos quase que revolucionários e apesar de não ter dito exatamente com essas palavras, acreditava que os planos políticos do Lula ajudariam a alimentar todas as lutas na América Latina!
O que me ocorreu é que o sempre bem informado Sr. Raul padecia de certo otimismo com a conjuntura política Sula-Americana, que seria a chave para o crescimento de Cuba e o fim de uma vez por todas do imperialismo yankee (era sempre assim que ele se referia aos Estados Unidos), posso estar enganado, mas para o Sr. Raul (e alguns outros que conversei no decorrer da viagem) essa nova onda de presidentes de esquerda moderados (para não dizer outra coisa) servirá como uma espécie de campo socialista no passado e que toda essa onda que surge na América Latina com Lula (Se lê Dilma), Kirchner, Chaves, Evo, Rafael, Lugo e etc. Irá caminhar para uma união de toda a América Latina e por fim a redenção de Cuba.
Bom, ao julgar que o Sr. Raul vinha da Venezuela, talvez tenha lido muito sobre essa coisa de revolução bolivariana (não sei se estou conjecturando) que ainda precisa ser muito bem estudada, mas a imagem que ficou é que o Sr. Raul era um cubano que tinha muito orgulho das coisas boas de seu país e tinha plena consciência de que o socialismo e a revolução haviam trazido essas coisas boas para seu país, mas que no fundo gostaria de ver mudanças no processo revolucionário, que era um homem repleto de otimismo, mas com certos anseios em relação ao seu governo.
O papo com ele foi se estendendo um pouquinho mais, até a aeromoça (que por sinal era uma senhora comum, tipo servente de escola, bem diferente das estereotipadas e belas aeromoças brasileiras) ofereceu a nós o lanche e o Sr. Raul resolveu aproveitar a pausa para voltar ao assunto musica e tentar me fazer lembrar quem era a Vanessa Jackson. Mas, foi em vão, só fui saber de quem se tratava depois quando comentei o papo todo com a Camila, mas acredito que o Sr. Raul não goste dela a toa, deve ser uma boa cantora.
E então, o avião finalmente chega ao cerco de Havana e iniciou seu processo de aterrissagem...
[Ah! Só mais um fato, ao concluir a aterrissagem o Sr. Raul reclamou que no Panamá as pessoas aplaudiam as aterrissagens (como aqui no Brasil) e ele achava isso muito bonito e de pronto puxou uma salva de palmas que foi acompanhada pelo avião todo e então ele se virou para mim e disse – ¡Ora compaym ay que cambiar! (rs)]
... e nós nos despedimos e “o antigo passageiro do assento ao lado 12-C”, agora meu colega cativado, fã de Black Music Brasileira, tomou seu rumo e nós o nosso, rumo a próxima experiência na terra dos heróis barbudos.

Penso que o Sr. Raul na verdade é muito mais do que isso e que ele poderia me dar um panorama completo do que é Cuba, nas áreas política, econômica e social, mas em um avião ficamos todos limitados mesmo, porém o que extraio disso tudo é como o cubano tem sensibilidade para com aquilo que está a sua volta e como a noção de identidade Latina é forte nos argumentos deles (digo deles porque vocês perceberão, mais para frente que isso se repetirá com outras pessoas) e de que como o cubano é antenado em política.
Depois desse bate papo de um pouco mais de duas horas e meia fiquei com uma mega curiosidade sobre o que iria encontrar em Cuba, pensava que pudesse haver milhares de Rauls pela ilha, enfim e mais um monte de coisas que não passam de montagens imaginárias que na pratica se mostrou mais dialética que tudo.
É, penso que não poderia ter um inicio de viagem melhor o que só nos deu mais ânimo para seguir direto até as entranhas de Cuba...
Um abraço a todos, até a próxima.
P.S: E um abraço em especial ao nosso camarada e companheiro Vinícius que foi brutalmente agredido por 8 policiais em uma manifestação contra o aumento da passagem de ônibus em São Paulo e esteve hospitalizado com ferimentos generalizados no corpo e rosto e foi submetido a uma cirurgia no nariz, mas agora passa bem.
Abraços camarada!
Fascistas cretinos! Camarada Vinícius não se rende...